Greve Ipusp - Odeio mas faço!!!

Colegas!!! Este é um espaço pra discussão, proposição e ação. Dá pra brincar, xingar, protestar, lembrar ... só não vale violência bruta, nem execução sumária. Vamos resgatar o sentido e a prática de um projeto comum, coletivo, nem que comece por virtualidades, mas que se estenda às relações concretas, tijolísticas...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Enquanto isso na ALESP...

Ato na Assembléia Legislativa por uma universidade pública e democrática
O ato realizado pelo Fórum das Seis, no dia 25/6, na Assembléia Legislativa, reuniu, entre outros participantes, estudantes, docentes e funcionários técnico-administrativos das três universidade públicas paulistas e do Centro Paula Souza. Representantes de todas as entidades do Fórum participaram da mesa, manifestando-se sobre os principais problemas que afetam as universidades paulistas.
A falta de democracia interna das universidades, a repressão policial do dia 9/6, no campus do Butantã, e a responsabilidade da Reitoria, a falta de recursos, a expansão sem a preservação da qualidade, o ensino à distância e a enorme privatização do ensino superior paulista, muito maior do que nos demais Estados, estavam presentes em várias manifestações da mesa e do plenário.
A não aprovação das emendas à LDO que aumentavam os recursos destinados à educação paulista, ocorrida na véspera, foi denunciada como um crime contra a população paulista (leia texto abaixo). Da mesma forma, foi denunciada como anti-social a política privatizante do executivo estadual em todos os setores.
Matéria Publicada no site da Adusp

Greve Agora... Greve Ágora... Olgária Matos manifesta-se mais...

No dia 24 de junho, no IPUSP, os participantes do debate com a Profa.Olgária Matos foram contemplados de momentos importantes e prazeirosos de reflexão e descobertas sobre "os sentidos de uma universidade pública". A greve é isso também, parar para a reflexão, inverter as ordens do tempo e das tarefas para que o pensamento flua, desdobre-se, contradiga-se. A Greve é amiga da Ágora e como numa das praças gregas, numa das assembléias do povo; pudemos compartilhar nossas angústias e necessidades de compreensão com uma mestra, que também a exemplo dos gregos e de Sócrates, particularmente; juntou-se aos cidadãos, ao pé da árvore, ao largo da praça, no espaço aberto e democrático, e demonstrou mais uma vez sua generosidade e solidariedade para com a universidade e a universalidade de suas questões. Mais uma vez ela nos afeta de admiração e amor ao pensamento.

Abaixo, artigo publicado em Carta Maior. Breve colocaremos trechos do debate referido acima... é só aguardar...


O Mal-estar na Universidade
Olgária Matos

A militarização do campus universitário da Usp e a solução de conflitos através da força atestam o “esquecimento da política.”, substituída pela ideologia da competência, entendida segundo o modelo da gestão empresarial, com seu culto da eficiência e otimização de resultados.Também a proposta mais recente da reforma da carreira docente e do projeto da implantação da Univesp(Universidade Virtual do Estado de São Paulo), respondem, cada qual à sua maneira, à “ produtividade”,os acréscimos salariais dos professores subordinando-se ao número de publicações e a seu estatuto—se livro, capítulo de livro, ensaio em revistas, se estas se ajustam ao “selo de qualidade” das agências de financiamento; número de congressos; soma de palestras; orientações de teses e dissertações e, sobretudo, se estas obedecem ao prazo preconizado,tanto mais exíguos quanto mais os estudantes chegam à Universidade desprovidos de pré-requisitos à pesquisa,como um conhecimento adequado do português para fins de leitura e escrita universitária,(guardadas as exceções de praxe),bem como acesso a línguas estrangeiras. De fato, a Universidade se adapta às circunstâncias do ensino médio, e o mestrado pretende contornar as deficiências da formação no ensino médio(e fundamental também), que incidem nos anos de graduação, convertida em extensão do segundo grau.
Professores e estudantes cedem precocemente a publicações,sem que haja nelas nada de relevante, e,ao mesmo tempo, devem freqüentar cursos ou prepará-los, realizar trabalhos correspondentes, desenvolver suas teses---uma vez que a quantidade consagra pontuações para futuras bolsas de iniciação científica ou aprovação de auxílios acadêmicos.Quanto aos docentes, estes se ocupam cada vez mais com tarefas de secretaria, como preenchimento de planilhas, elaboração de relatórios, propostas de inovação em cursos não obstante ainda em vias de implantação, acompanhamento de iniciação científica, organização desses congressos, participação em atividades de iniciativa discente, preenchimento de pareceres on line de um número crescente de bolsistas, e por aí vai. No que diz respeito ao ensino à distância, ele não responde à democratização da Universidade mas a sua massificação.
O abandono da Universidade Cultural e sua substituição pela “Universidade da Excelência” ou do “ Conhecimento” dizem respeito à dissolução do papel filosófico e existencial da cultura. Constrangido à pressa e ao atarefamento diário, o ócio necessário à reflexão e à pesquisa é proscrito como inatividade, os improdutivos comprometendo o princípio de rendimento geral. Este encontra-se na base da transformação do intelectual em especialista e da docência como vocação em docência como profissão. O saber técnico é o do expert que transmite conhecimentos sem experiência, cujo sentido intelectual e histórico lhe escapa. Assim como no processo produtivo a proletarização é perda dos objetos produzidos pelos produtores e perda do sentido da produção, a especialização pelo know how é proletarização do saber.Por isso o especialista moderno se comunica por fórmulas, gráficos, estatísticas e modelos matemáticos.Foucault reconhece seu primeiro representante em Oppenheimer que enunciou o projeto Mannhathan-- que levou à bomba-atômica-- em termos simpaticamente técnicos.
A “Universidade do Conhecimento” perverte pesquisa em produção. Quanto à educação à distância, ela não significa um apoio ao conhecimento e seu acesso a regiões distantes, mas sim o fim de toda uma civilização baseada nos valores da convivência, da sociabilidade e da felicidade do conhecimento.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Olgária Matos manifesta-se...

Polícia na USP é “mais do que autoritarismo”, diz professora de Filosofia Olgária Matos

Qua, 10 de Junho de 2009 12:27
Fonte: Carta Maior/Palavra Latina

Polícia na USP é ‘mais do que autoritarismo’ , diz filósofa
A renomada filósofa Olgária Matos e outros 300 intelectuais firmam abaixo-assinado no qual rejeitam a ‘ação violenta de desocupação do prédio [da Reitoria]‘ da USP. Para ela, os estudantes deram ‘uma aula de democracia ao poder instituído na universidade’.
por Rafael Sampaio – Carta Maior

SÃO PAULO – Signatária de um abaixo-assinado que pede novas negociações da reitora Suely Vilela com os estudantes que ocuparam a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus Butantã, em São Paulo, a professora titular de Filosofia, Olgária Matos, chama de “absurda” a hipótese de a Tropa de Choque realizar o despejo forçado da ocupação. Olgária é especialista em filosofia política e História da Filosofia, com enfoque no iluminismo. Ela lançou livros como “Discretas Esperanças”. Assim como Olgária, outros 300 professores da USP assinam a petição e rejeitam “qualquer ação violenta de desocupação do prédio [da Reitoria], tendo em vista a justeza de sua causa política em defesa da universidade pública”. Dentre os que assinam o documento estão os professores Antonio Candido, Alfredo Bosi, José Miguel Wisnik, Marilena Chauí, Franklin Leopoldo, Luiz Tatit, PauloArantes, Maria Victoria Benevides e Leda Paulani.
“Em vários países do mundo, a universidade está a salvo das ingerências policiais, porque ela é a única capaz de garantir pensamento livre”, diz Olgária, para quem as “novas idéias” não podem ser limitadas.
“É claro que muitos professores não acham [a ocupação] uma atitude que deve ser promovida ao status de arma política ou forma de luta política”, pondera a professora. Porém, ela faz questão de lembrar que “enviar a Polícia Militar, neste caso [de ocupação], é como intimidar um movimento civil, intelectual e político dos estudantes”.
Confira, abaixo, a edição das melhores partes da entrevista:

Carta Maior - Como a senhora vê uma provável desocupação da reitoria da universidade mediante uso da força policial?

Olgária Matos - Seria gravíssimo se isso viesse a acontecer. Parece-me que o significado das reivindicações dos estudantes é legítimo, o que deve ser discutido com a Reitora e não com a Polícia Militar.
Acredito que esta ocupação foi uma fórmula para estes jovens darem uma aula de democracia ao poder instituído na universidade. Eles devem ter consciência total ou parcial do que está acontecendo, e assim se faz o difícil aprendizado democrático que as autoridades universitárias não conseguem entender.
CM – A senhora, que tem uma longa história na universidade, já presenciou este tipo de ação da Polícia Militar dentro do campus?

Olgária – Eu só me lembro da ocupação do prédio da Maria Antônia [batalha ocorrida em outubro de 1968 entre estudantes de Filosofia da USP e da Universidade Mackenzie]. Foi o dia mais triste da história desta instituição e de todas as universidades do Brasil, se você quer saber.

CM - Qual o significado simbólico da presença da Polícia Militar no campus? Trata-se apenas de autoritarismo?

Olgária - Não é autoritarismo, é pior. Porque quando há autoritarismo, ele previne muitas vezes o uso da força policial, porque já faz [implicitamente] o papel de polícia. Não é que os policiais sejam maus. Mas o que significa a presença da polícia armada dentro de um campus, sendo que as nossas únicas armas são os livros e o pensamento?
É muito grave, porque se ocorrer isso, serão armas desiguais, e o recinto universitário é um lugar que fica distante do conflito armado urbano. Enviar a Polícia Militar neste caso é como tentar intimidar um movimento civil, intelectual e político dos estudantes. Seria responder a isso com a força bruta, então é totalmente absurdo.

CM – A senhora diz que as reivindicações são legítimas. O que pensa da ocupação na Reitoria?Olgária – Eu acho que os estudantes que lá estão têm consciência de que eles não representam todos os estudantes, todos os professores e todos os funcionários da universidade. Se eles discutiram e na dinâmica do movimento estudantil foi decidido assim, não cabe a nós julgar. Não sei, mas talvez eles se sintam desatendidos e não encontraram quem intermediasse as suas reivindicações. Acho que [ocupar] foi uma atitude extrema, mas toda esta politização amadurece e ensina. Todas as reuniões, estas discussões, tudo isso esclarece a consciência dos atos dos alunos. Isso amadurece a vida política da universidade e dos estudantes. Antes de avaliar se é legítimo ou não, acho que vale olharmos a politização que o ato teve e em como isso vai ficar na história da universidade.

CM – Existe um consenso dentre os professores de que utilizar a força policial para fazer a desocupação da Reitoria é desnecessário?

Olgária – Os professores não querem violência na desocupação. O que não é consenso é sobre a ocupação ou não da Reitoria. Há professores que crêem que ocupar este prédio é um excesso de ativismo. Simbolicamente é um lugar muito importante, é o lugar da autoridade, a Reitoria, que é necessária para coesão de toda a vida universitária.
É claro que há muitos pofessores que não pensam que [a ocupação] é uma atitude que deve ser promovida ao status de arma política ou forma de luta política.Agora, parece que as últimas gestões da Reitoria e das direções dos cursos vêem os estudantes como uma parte desprezível ou secundária na vida universitária. Na verdade, a razão de ser da USP é a docência e a pesquisa, que não são duas coisas separadas.
A docência existe, então é essencial existirem aulas. Eu acho que os estudantes são a matéria nobre da instituição, e vejo uma desconsideração [da Reitoria]. Se a reitora Suely Vilela marca uma audiência pública e não pode aparecer [primeira razão do protesto dos estudantes], ela deveria enviar alguém, um representante. Os estudantes não estão [fazendo a ocupação] em uma causa vazia.Eles querem defender a universidade. Em vários países do mundo, a universidade está a salvo das ingerências policiais, porque ela é a única capaz de garantir pensamento livre. As novas idéias não podem ser cerceadas. Então você tem que responder intelectualmente ao movimento estudantil, que está fazendo uma defesa da autonomia universitária. Não é só autonomia orçamentária, mas é de pesquisa e de deliberações. É uma questão de filosofia política séria.E mais: é uma questão de dignidade institucional. Não dá para inverter uma lei que foi conquistada com muita luta dos docentes, depois de um longo período de ditadura. Ou seja, estes decretos causam uma reação instantânea de quem entende o que é a universidade. A sociedade brasileira entende mal o papel de uma universidade, infelizmente.Nosso país tem elites avarentas no seu conhecimento, que não querem compartilhá-lo com a sociedade. A universidade é mal-entendida, por isso há espaço para a reitora Suely não se dispor a negociar mais. Até agora, os professores tentaram fazer algumas comissões para negociar com ela. Mas Suely não recebe nem estes grupos, formados às vezes por professores universitários e intelectuais renomados.

CM – A senhora acredita que os decretos de fato ferem a autonomia universitária?

Olgária – Claro que ferem! Só a idéia de ter um decreto já fere a autonomia. Não dá para dizer o contrário quando existe uma rotina consolidada na universidade mais importante da América do Sul, e que acaba alterada desta forma. A universidade sabe o que faz, o que precisa e o que conduz. Ela presta periodicamente contas ao governo, e sabe a dinâmica de seus cursos, de suas publicações, de suas relações com docência, pesquisa, extensão, os congressos, as relações com outras universidades, com o ensino superior estrangeiro. O governo que está fora dela vai deliberar se o que a universidade faz está correto ou não, se tem qualidade ou não?
O governo é uma instância burocrática político-administrativa externa à universidade, que tem que dialogar. Mas não é na forma de decreto que se cria esse diálogo. Fazer os decretos é uma expropriação das práticas e consciência universitária, isso é gravíssimo.
Estamos vivendo o fim da universidade pública, gratuita e de qualidade. Não é um ataque isolado. Trata-se de um processo maior do que o governo de José Serra (PSDB-SP), que é só um emissário desta situação [de mercantilização] das universidades.

domingo, 21 de junho de 2009

Afinal, onde são os tais piquetes?

PM sai da USP na segunda, diz reitoria

TALITA BEDINELLIda Folha de S.Paulo

A reitoria da USP afirmou ontem que a Polícia Militar deixará, na segunda-feira, a Cidade Universitária (zona oeste de SP). A decisão foi tomada depois que funcionários, em greve desde 5 de maio, decidiram suspender os piquetes -que tinham como objetivo fechar as portas de oito prédios da USP, incluindo o da reitoria.
A saída dos policiais, no entanto, pode não ser definitiva, já que os manifestantes dizem que os piquetes só serão suspensos em dias de negociação.
"Se a negociação for segunda e quarta, por exemplo, na terça faremos o piquete", disse Magno de Carvalho, diretor de base do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP).
Os piquetes eram o último impasse para a retomada das negociações entre grevistas de USP, Unesp e Unicamp e as reitorias das três universidades.
Por causa dos bloqueios aos prédios, a PM ocupa a USP desde o começo do mês para cumprir um mandado de reintegração de posse pedido pela reitora Suely Vilela. Em resposta à entrada da PM, parte dos professores e estudantes da USP decidiu aderir à greve em 5 de junho. Eles pedem ainda que a reitora deixe o cargo.
As negociações haviam chegado a um impasse: os grevistas afirmavam que não as retomariam enquanto a PM estivesse no campus; a reitora dizia que os policiais só sairiam quando os piquetes terminassem.
No dia 9, após um ato na USP, PMs entraram em confronto com alunos e servidores, deixando dez feridos.
Ontem, o Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) confirmou que a negociação com o Fórum das Seis --entidade que representa alunos, funcionários e professores das três universidades-- está marcada para segunda, às 14h.
Reivindicações
Entre as reivindicações dos grevistas, estão reajuste salarial maior e a readmissão do sindicalista Claudionor Brandão.
O diretor de base do sindicato voltou ontem a defender os piquetes, dizendo que eles são necessários para evitar que os trabalhadores em greve sejam obrigados pelos chefes a retornar ao serviço. "Eles ligam ameaçando, dizendo que o prédio está aberto e que, se os trabalhadores não voltarem, podem sofrer consequências."
A assessoria de imprensa da reitoria afirmou que não há como verificar a veracidade das informações, porque não há nenhuma reclamação de trabalhadores em greve contra os supostos assédios dos patrões.
Com a presença da PM no campus -pela primeira vez no dia 1º de junho e permanentemente a partir do dia 3-, os manifestantes iam até as portas dos prédios diariamente, mas não conseguiam bloqueá-las.
O Sintusp afirmava, no entanto, que, no momento em que os policias saíssem, as portas seriam bloqueadas de novo.
Para segunda-feira, dia da negociação, os grevistas da USP marcaram um novo ato em frente à reitoria. A manifestação deve contar também com a presença de grevistas da Unesp e da Unicamp.

Dinheiro Tem... falta diálogo na USP...

Orçamento da USP aumentou 37,7% entre 2005 e 2008

LAURA CAPRIGLIONEda Folha de S.Paulo

Junte-se uma greve por salários com piquetes, assembleias e muito, muito bate-boca. O diagnóstico quase sempre sai no piloto automático: "A USP está falida". Errado. A USP está, isso sim, na fase das vacas gordas. Entre 2005 e 2008 o orçamento da universidade deu um salto de 37,7%. Foi de R$ 1,858 bilhão para R$ 2,560 bilhões. A previsão para o ano de 2009 é que entrem na universidade R$ 2,816 bilhões --um quarto de bilhão de reais a mais do que no ano passado.
Só para comparar: trata-se de cifra comparável à receita orçamentária de Estados inteiros, como o Piauí (R$ 2,6 bi) ou Alagoas (R$ 2,8 bi). Ou de quase duas vezes a receita de Tocantins (R$ 1,4 bi), ou ainda de 4,4 vezes o Acre (R$ 640 milhões).
A dinheirama que todo ano é despejada na USP --e também na Unicamp e Unesp, que juntas receberam R$ 2,6 bilhões em 2008-- deriva de uma disposição da Constituição paulista de 1988, segundo a qual as universidades estaduais devem receber um percentual fixo da arrecadação do ICMS.
Cada vez que uma dona de casa vai ao mercado e uma nota fiscal é emitida, 5,0295% do total arrecadado com o imposto cai nos cofres da USP.
Engenheiro agrônomo com doutorado em economia, Joaquim José de Camargo Engler, 67, integra a Comissão de Orçamento e Patrimônio da USP desde 1983 --há 26 anos, portanto. Acumula o cargo com o de diretor administrativo e financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. "Não há crise financeira na USP. A USP não está falida. Ao contrário."
"Crescimento do consumo e estímulos à arrecadação --como a Nota Fiscal Paulista-- levaram a universidade à atual fase de expansão de receitas", Engler explica. A coisa ficou ainda melhor porque o número de aposentados da USP (cujos benefícios são pagos pelas receitas da própria universidade), depois de conhecer um crescimento de 106% entre 1988 e 2003), estabilizou-se.
Prevê-se que, neste ano, R$ 528 milhões saiam dos cofres da USP para pagamento dos inativos. Outro R$ 1,9 bi está reservado para pagamento dos funcionários e docentes da ativa --dá um total de R$ 2,4 bi, ou 86% do total que a universidade pretende recolher.
Em 2003, em um cenário econômico bem mais sombrio e sem os incentivos atuais à arrecadação, a folha de pagamento da universidade superou toda a receita. O jeito foi pedir empréstimo aos bancos.
Crise global
Neste início de 2009, crise econômica mundial, falências e concordatas de gigantes como a GM nos Estados Unidos, e já se começou a falar em retração das receitas da USP. Trata-se de um desincentivo e tanto ao pleito de reajuste salarial feito pelas entidades de professores e funcionários. "O problema é que, uma vez concedido o reajuste, não se pode voltar atrás, ainda que a arrecadação despenque. Por isso é que é tão importante manter uma margem de segurança", diz Engler.
O próprio professor, entre tanto, adverte que não há motivos --"ainda"-- para pânico. Os resultados dos meses de janeiro, fevereiro, março e abril desautorizam isso. Recolheram-se aos cofres da universidade R$ 924 milhões. O orçamento previa para o 1º quadrimestre de 2009 repasse de R$ 939 milhões. Ficou R$ 15 milhões aquém (um "troco", perto do orçamento total). Ainda assim, é 3,3% a mais do que os R$ 894 milhões que foram depositados na conta da USP em igual período de 2008. "Isso é que é crise gostosa", brincou Engler.
Edson Nunes, pró-reitor de planejamento da Universidade Candido Mendes do Rio de Janeiro, considera que o comprometimento do orçamento da USP com os salários é alto de mais, mesmo antes de qualquer reajuste salarial. "Numa universidade de pesquisa privada, quando o percentual chega a 70%, já se começa a mudar o planejamento."
Outros custeios
Na USP, o dinheiro que sobra para outros custeios e investimentos equivale a R$ 385 milhões. No orçamento deste ano, preveem-se gastos de R$ 85,7 milhões com moradia estudantil, bolsa-alimentação, creches e outros apoios destinados a estudantes carentes, além de apoio à saúde, refeições subsidiadas, clube poliesportivo, monitorias e estágios.
A universidade também de verá gastar R$ 43 milhões em contratos de vigilância e outros R$ 36 milhões em limpeza.
E a pesquisa científica? Segundo o professor Engler, que --repita-se-- é também diretor administrativo e financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, para isso existem agências de fomento, como a Fapesp: "A universidade dá como contrapartida para o financiamento a excelência de seus quadros científicos, um ambiente propício, funcionários qualificados. É uma relação saudável".

Alguns quadros importantes para ler e pensar...
Evolução de pessoal
Gasto com pessoal e participação relativa por unidade
Liberações financeiras - ICMS
Liberações financeiras - Lei Kandir
Liberações financeiras - outros
Evolução do ICMS definitivo do Estado de São Paulo
Evolução das Receitas e Despesas
Comparação entre a distribuição geral dos recursos
Distribuição da dotação orçamentária para áreas de atuação
Distribuição da dotação orçamentária para unidades
Distribuição da dotação orçamentária para institutos especializados
Distribuição da dotação orçamentária para órgãos de apoio
Distribuição da dotação orçamentária para órgãos de serviço
Distribuição dos recursos para atividades integradas e projetos especiais
Distribuição dos recursos para outros custeios e investimentos
Estimativa das despesas
Previsão de arrecadação

E do caos nasce alguma luz... Crise, Ruptura e Superação...

FÁBIO TAKAHASHILAURA CAPRIGLIONEda Folha de S.Paulo, em Brasília
21/06/2009 - 08h36 Centralização de poder alimenta crise na USP Publicidade


Pelo menos em um ponto, professores titulares (o mais alto grau da carreira docente) e o sindicato "vermelho" dos funcionários estão de acordo: o poder na USP precisa de oxigênio.
Se a crítica à rigidez dos órgãos de poder da universidade sempre fez parte das reivindicações das entidades sindicais, a diferença do momento atual é que, pela primeira vez desde 1988, gente de dentro da própria direção da USP admite que, do jeito que as coisas estão, a universidade não consegue refletir a diversidade da instituição, promover o diálogo e o entendimento.

Orçamento da USP aumentou 37,7% entre 2005 e 2008

Até o Conselho Universitário, apontado como uma espécie de "órgão senatorial", quartel-general da velha guarda uspiana, já admitiu que é preciso mudar a forma de eleição para reitor. Para isso, designou uma comissão encarregada de propor modificações no estatuto da universidade. Essa mesma comissão já propôs e conseguiu aprovar mudanças na carreira docente e na organização das prefeituras dos campi.
O entendimento é que o sistema atual de eleição favorece em demasia a representação dos professores titulares em detrimento das categorias inferiores de docentes, e das representações de funcionários e estudantes. No segundo turno da eleição de reitor, por exemplo, que decide a lista tríplice a ser encaminhada para decisão final do governador, votam cerca de 300 pessoas. Destas, a categoria com mais votos é a dos titulares, que tem um quinto de todos os docentes da USP. No total, a comunidade uspiana conta com cem mil estudantes, funcionários e professores.
Uma hipótese levantada é ampliar o número de pessoas com poder de voto no colégio eleitoral. Também se estuda a alteração na distribuição dos votantes entre as unidades.
Hoje, as unidades têm praticamente o mesmo peso na votação, apesar de seus tamanhos serem muito diferentes. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Escola Politécnica, por exemplo, possuem cada uma, cerca de 460 docentes, enquanto há unidades como o Instituto de Química de São Carlos, com 70.
A insatisfação com a atual estrutura de poder da USP já se estendeu até mesmo a apoiadores de primeira hora da reitora Suely Vilela.
É exemplo disso o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Sylvio Sawaya. Em 2007, durante a greve com invasão da reitoria, ele pessoalmente organizou e animou um protesto pelo fim do movimento e pela volta à normalidade.
Agora, Sawaya trabalha com um grupo de professores para desenvolver uma plataforma que, entre outros itens, prevê um Conselho Universitário com "representação mais equânime das categorias docentes e representações proporcionais ao número de alunos".
"A universidade está em uma grande crise. Há muita insatisfação, que esse movimento [grevista] ecoa. Não é revolta por reajuste salarial, fim do ensino a distância, mudança na carreira [reivindicações dos grevistas]. É por mais debate na universidade. E uma mudança importante seria alteração na forma de escolha para reitor. Já na última eleição foi um ponto destacado por todos os candidatos, mas não andou", disse o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade Hélio Nogueira da Cruz, ex-vice-reitor da USP.

sábado, 20 de junho de 2009

Maria Antônia não morreu... e está na USP

Incrível, mas isso existe ... e como, na USP. A notícia veiculada na Folha dia 18/6 sobre um grupo de alunos organiza uma "greve da greve" (!?!), "concretizou-se", no dia 19/6, em duas situações, ao ameaçar ocupar o Sintusp. A primeira por volta do meio-dia. Alguns alunos "infiltraram-se" entre os funcionários: uns como curiosos, outro com o megafone escondido por dentro da blusa, outro que iniciou o protesto ao gritar "É pic nic, é pic nic"enquanto corriam falas de funcionários. Um empurrão, uma confusão, uma lata projetada, mas logo saíram empurrados pelo bafo quente de funcionários que ao gritarem "fora", descarregavam o estresse de tantos dias de intolerância dos dirigentes da USP e ora a aguentar esse tipo de brincadeira (talvez copiada de um Pânico da vida). Eles não conseguiram o fato que queriam para mostrar à imprensa, mobilizada e atenta a registrar qualquer confusão ou ferimento.
Logo encontraram a ação de outros alunos mais atentos aos acontecimentos da USP e que vieram dialogar... mas diálogo é mais difícil de suportar que socos e pontapés (pobres coitados, ainda não saíram do pré-operatório), logo foram embora... mas as discussões continuaram e uma assembléia seguiu-se à tarde.
Daí, dada a dificuldade de memorizar, relacionar experiências e submetê-las a juízo moral, voltaram à noite, na praça do relógio, ao "ataque", mas verbal, com palavras de ordem do tipo: "morte ao brandão", "brandão é repressão", "facismo não é com X" etc pérolas de quem enxerga o mundo entre dois polos somente. De outra lado, encontraram, novamente, a ação de alunos (a classificação direita e esquerda talvez ajude a entender melhor, embora não se encaixe exatamente a nenhum dos dois grupos, pois não fica muito claro pelo quê exatamente estão bringando). Estes rebatiam com frases do tipo: "malhação é repressão", "volta pro Orkut", etc. Uma patrula da PM apareceu, ouviu a ala da direita (como sempre), mas logo foi embora. O movimento intensificou-se e, mais uma vez (a repetição é necessária no processo de aprendizagem, especialmente no estágio de desenvolvimento em que se encontram), os da direita foram empurrados pelo bafo irado dos da esquerda... e como foram empurrados! Da Praça do Relógio até a Poli é chão, duro e pedregoso para quem olha só o próprio umbigo.



Por volta das 20h, tudo voltou à calmaria e os estudantes da esquerda fizeram uma assembléia em frente ao Sintusp. Este relato encerra-se com a comunicação do Magno (sintusp) de que a equipe técnica levou a condição para negociação na segunda-feira "PM Fora" e suspensão do piquete, ao que receberam como resposta: "Haverá negociação".

Ao mesmo tempo engraçada, enquanto rídicula, a ação da direita, e profundamente triste ao constatar uma força tão reacionária de alunos muitos jovens e nada articulados, mas apoiados pelas manifestações de quem tem o poder na USP, como os dirigentes de unidades quando se manifestarem ao lado da Reitora (o que não quer dizer ao lado da USP), a qual trata de forma bruta e desrespeitosa o patrimônio e servidores da USP. Não há mediações, não há concessões, não há diálogo... A Maria Antônia instala-se na USP, meio raquítica e deformada por tempos em que os sentidos de coletivo, de projeto social, compartilhamento, bem comum perderam-se por aí.

Quando alunos do "flash mob" vêm fazer pic-nic na assembléia dos funcionários é uma representação do que vêm fazer na USP: comem o lanche e abandonam o que usaram e a sujeira que deixaram pela universidade, depois que se formam. Falam em representatividade do DCE ou qualquer outra agremiação estudantil e esquecem-se de que o Conselho Universitário representa menos de 1% da USP ... isso é representatividade? (Robson)